Baianos porque sim. Novos porque alguém gritou antes da estréia "chama aí esses novos baianos"...



Tudo começou no Teatro Vila Velha (Salvador - BA) com o espetáculo "O Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio Universal". Os participantes: Luiz Dias Galvão, engenheiro agrônomo formado e praticante, poeta, aficionado por música, cinema e teatro, 32 anos; Antônio Carlos de Morais Pires, 21 anos de audição do alto-falante de Turiassu, no interior da Bahia; Paulo Roberto de Figueiredo, engresso da cidadania de santa Inês e ex-crooner da Orquesta Avanço, presença obrigatória nos bailes da região de Salvador, 23 anos, apelidado de La Bouche ou Paulinho Boca de Cantor; a niteroiense Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade, recém-chegada a Salvador, onde comemoraria seus dezessete anos morando debaixo da ponte; Jorginho, Carlinhos, Lico e Pedro Anibal de Oliveira Gomes, o Pepeu, que integravam a banda de apoio, os Leif's. Com exceção de Bernadete, todos baianos e todos ilustres desconhecidos, estranhos, radicais, acintosos e novos. Era o início dos Novos Baianos, em pleno caos de 1969.

Baby, menina-problema de Niterói- costumava estudar no telhado de sua casa de vila e, à noite, ficava admirando em seu quarto um poster de Brigitte Bardot, remoendo silenciosa um desejo de ter as iniciais tão marcantes: BB. Sonhava, como tantas em sua idade, ser artista, cantora, merecer posters com suas iniciais. O nome não ajudava e o ginásio atrapalhava ainda mais. Num rasgo de liberação, vai com sua amiga, Ediane, passar as férias em Salvador, onde conhece Galvão e Moraes no "bar mais quente de lá", o Brasa. Galvão e Moraes haviam sido apresentados pelo cantor e compositor Tom Zé, amigo de Galvão desde que este lhe fez um projeto para o jardim de sua casa. Moraes, saído de um curso de percurssão no Seminário de Música da Bahia (não havia vaga de violão, seu instrumento), também conhecia Tom Zé, com quem fazia um show no Teatro Vila Velha.

Paulinho La Bouche, interiorano de chances novas na música, também conhece a tríade baiana e junta-se a eles na pensão de Dona Maritó. E de todos que formariam mais tarde os Novos Baianos, Pepeu era indiscutivelmente o músico, mestre da guitarra, dono de um estilo desde então inconfundível, genuinamente brasileiro. E era, ainda, o único veterano no sentido escrito da palavra, pois já havia passado por alguns grupos anteriormente, entre eles Os Minos, onde permaneceu tocando contrabaixo por quatro anos - momento raro registrado em compacto pela Copacabana em 1966: Febre de Minos e Fingindo me Amar. Junto com seu irmão Jorginho e os amigos Lico e Carlinhos, funda Os Leif's.

Foi Gilberto Gil que lançou Pepeu como guitarrista, o convidando para tocar com ele e Caetano Veloso no show de despedida no Teatro Castro Alves, o Barra 69. Gil viu Pepeu num programa da TV Salvador acompanhando Moras Moreira em São Paulo, ligou para a estação, achou seu endereço e foi buscá-lo em casa.

Em pleno caos de 1969, em meio às runínas das bananas e da antropofagia renascentista do tropicalismo, que surgem os malandros, loucos e imprevisíveis Novos Baianos. Novos porque pós-Gil e Caetano; baianos porque sim. Ou, como conta Pepeu, porque o grupo ia se apresentar na Record e ainda não tinha nome; então, na hora deles entrarem em cena, um funcionário da emissora gritou: - Chama aí esses novos baianos!



No início, apenas um quarteto - Moraes, Galvão, Paulinho e Baby (cujo novo e celebrado nome nasceu de uma personagem de filme) - que era acompanhado pelos Leif's. Galvão, o poeta e mentor, era obrigado a fazer mímica no palco, porque na época os empresários não admitiam trios cabeludos e só. Moraes, o parceiro de Galvão, a voz agridoce, o violão sutil. Paulinho era o malandro, o Lúcifer, o mandingueiro. Pepeu era o músico. Baby, a menina.

Depois do rebuliço do Dilúvio em Salvador, os Novos Baianos vão para São Paulo, onde se apresentaram em inúmeros programas de TV, sempre ultrapassando o número previsto de músicas e encenando expedientes absurdos, como fizeram a terminar seu showzinho no programa da Hebe Camargo, dançando tango com a animadora. Começa aí uma extensa lista de empresários, gravadoras, úlceras e dores de cabeça para quem quer que ousasse contratar os Novos Baianos. O primeiro empresário foi o poderoso Marcos Lázaro e a primeira contratação foi pela RGE, através de João Araújo. lançam, em 1969, um compacto ("De Vera" e "Colégio de Aplicação") e em seguida um LP cáustico, sardônico, ameaçador ("É Ferro na Boneca"), que incluía as faixas do compacto, uma cornucópia de estilos e títulos e ainda foi tema de dois filmes da época: "Caveira My Friend" e "Meteorango Kid".

Como o sucesso em São Paulo não fosse dos mais estimulantes, como ficou comprovado na desclassificação de De Vera no Festival da Record de 69, os Novos Baianos buscam público no Rio de Janeiro, levando consigo o Dilúvio e Pepeu, com seu novíssimo grupo de Ribeirão Pires, interior de São Paulo, Os Enigmas, de onde saiu também Odair Cabeça de Poeta, que muitos insistiam em confundir com um ex-Novo Baiano.

A mise-en-scéne foi a mesma do Teatro Vila Velha, só que, dessa vez, no Teatro Casa Grande. Como precisavam de um baixista, eles buscavam um substituto nas ruas de Ipanema e acabam achando Dadi, roqueiro de 18 anos, cuja única experiência verdadeira como músico vinha de tardes e noites acompanhando a última dos Rolling Stones com seus amigos. Pepeu se desliga definitivamente dos Enigmas, chama seu irmão Jorginho para ser o baterista, convida dois amigos percursionistas de São Paulo, Bola e Baixinho.

A farra estava formada. O LP pela RGE não vendera grande coisa, mas um dos grandes atrativos dos Novos Baianos era seu estilo até então inusitado de vida: todos moravam juntos, em comunidade, em Botafogo: quatro cômodos divididos entre doze pessoas.

A grande interação, além de provocar um perfeito entrosamento entre os músicos, gera subgrupos dentro dos Novos Baianos, como o trio Dadi (baixo), Pepeu (guitarra) e Jorginho (bateria), que passa a se chamar A Cor do Som e a apresentar um repertório elétrico-eclético que deixava entrever a destacada direção musical de Pepeu, guitarrando feroz, misturando Trio Elétrico e Jimi Hendrix num fraseado só.

Em 1971, a segunda gravadora e o segundo compacto, considerado por Moraes um disco ruim e mal gravado. Neste mesmo ano, João Gilberto vem ao Brasil e vai se confraternizar com os Novos Baianos, em Botafogo.

O ritmo da composição da dupla Galvão-Moraes sobe muito. João Gilberto ajudou muito no grupo, dizendo que eles deveriam gravar "Brasil Pandeiro", de Assis Valente, que era a cara deles. Também os fez enxergar com outros olhos a música popular brasileira. Ainda os fez pegar num cavaquinho, num pandeiro e a tocar samba.

Com todas as inovações e surgimento das músicas novas (Preta Pretinha, Acabou Chorare, Swing de Campo Grande), os Novos Baianos fazem uma temporada na boate carioca Number One, que deveria ter durado um mês, mas que acabou se estendendo por dois anos, por exigência do dono da casa, estimulado pela boa locação que o grupo trazia com sua direção musical. O público de meia-idade que freqüentava o Number One não podia deixar de se supreender com "um bando de cabeludos" fazendo um puro e sonoro samba.

Em sua terceira gravadora, os NB, recém-saídos desse vigoroso banho de brasilidade, gravam seu mais consistente álbum, "Acabou Chorare". Lançado em 1972 pela Sigla, Acabou Choraes mostrava todas as mudanças do novo trabalho baiano.


Eles alugam um sítio na Estrada dos Bandeirantes, na zona industrial de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, que foi apelidado como "Catinho do Vovô" e viu-se tomado por fanzocas exaltados, amigos de longa data, curiosos e, algumas inesperadas vezes, policiais.

Como era de se esperar, os NB trocam de gravadora novamente. Gravam seu terceiro disco pela Continental. "Novos Baianos Futebol Clube", um disco intimista, pessoal, como se refletiria no show seguinte, com o palco enfeitado de bandeirolas de São João e repleto dos filhos dos membros do grupo e de seus acólitos. Esse disco, ganhou um filme de Solano Ribeiro de mesmo nome.

A convite de um executivo da Continental, os NB vão morar em uma fazenda em São Paulo, onde gravam seu quarto álbum, "Novos Baianos" (mais conhecido como "Alunte"). Talvez pela capa feita com cores berrantes e pela má divulgação, o disco não chega a vender tanto quanto seus predecessores. O grupo se desentende com a gravadora, seguindo a tradição de contratos a curto prazo e estrepolias com seus contratantes.

E vem a crise. Na procura de seus caminhos próprios e inconformado com a despropositada estagnação musical do grupo, Moraes Moreira sai dos Novos Baianos para fazer sua carreira solo. Desfalcados de um compositor, eles encarregam pepeu de compor, dando-lhe carta branca para redirecionar o grupo. Praticamente no mesmo período, Dadi deixa os Novos Baianos, aparentemente sem planos de trabalho individual.

No final de 1974, os NB assinam contrato com a Som Livre e gravam seu primeiro disco sem Moraes, "Vamos pro Mundo", com regração de "Tangolete" (do primeiro álbum) e uma adaptação para "Preta Pretinha no Carnaval" (do segundo álbum). Moraes Moreira lança seu primeiro trabalho solo em 1975, levando seu nome ao disco.

Em 1976, o grupo assina seu contrato mais longo: assinaram dois anos com a Tapecar, onde gravaram os LPs "Caia na Estrada e Perigas Ver" (1976) e "Praga de Baiano" (1977). O grupo investe em samba, rock e chorinho no álbum de 1976. Já no álbum de 1977, o trio elétrico e a música instrumental domina o álbum.

Os Novos Baianos gravam seu último disco juntos. "Farol da Barra", uma canção de Caetano com letra de Galvão leva nome ao álbum de 1978. No mesmo ano, Baby e Pepeu lançam discos solos e o grupo se separa. No ano seguinte, é a vez de Paulinho lançar seu primeiro disco solo.


Alguns seguiram suas carreiras assiduamente, como Baby, Pepeu e Moraes. Paulinho gravou alguns discos e Dadi formou finalmente a banda A Cor do Som, com quem lançou discos juntos.

Por influência da cantora Marisa Monte, em 1997 os Novos Baianos se reunem e gravam um disco duplo em comemoração aos 18 anos de existência do grupo. Iniciam uma turnê, que durou aproximadamente um ano e meio.

Hoje, cada integrante permanece com sua carreira individual e alguns mudaram seu estilo, que foi o caso da Baby, que abandonou a MPB e aderiu ao gospel e a conversão religiosa. Moraes adentrou no frevo, Pepeu continuou como guitarrista e Paulinho como sambista. Galvão escreveu alguns livros em sua carreira, entre eles "Anos 70 - Novos e Baianos", em 1997.




¤ Biografia extraída: da 'Enciclopédia "Nova História da Música Popular Brasileira - Raul Seixas, Moraes Moreira e Novos Baianos' de Tárik de Souza, com adaptações de F®ëðy§ÑZ.


:: Vídeos ::

Dona Nita e Dona Helena (1970)



Sou mais você/ Curto de véu e grinalda (1970)



Preta pretinha (1973)



A menina dança (1973)



Brasil pandeiro (1973)



Mistério do Planeta (1973)



Samba da minha terra (1973)



Sorrir e cantar como Bahia (1973)



Brasil Pandeiro (1973)



Ladeira da Praça (1973)



Preta Pretinha (1973)



Linguagem do Alunte (1973)



Na cadência do samba (1974)



Vamos pro mundo/ Brasileirinho (1974)



Beija-flor (1976)



Ziriguidum (1976)



Praga de baiano (1976)



A menina dança (1997)



Eu sou o caso deles (1997)



Mistério do Planeta (1997)



Brasil Pandeiro (1997)



A menina dança (1997)



Anos 70 (1998)



Samba da minha terra (1998)



Dê um rolê (1998)





:: Links ::

Baby do Brasil
Portal SNZ
Sarah Sheeva
Zabelê Gomes

           

¤ Essa página foi criada por F®ëðy§ÑZ em homenagem ao grupo pós-tropicalista Novos Baianos - 2008 ¤